Mãe Curitibana

Uma das coisas que as pessoas me perguntam é porque eu vou ter a Carmen em Curitiba, já que moro (por enquanto) em São Paulo. A situação é a seguinte:  eu não tenho plano de saúde. Na verdade, tenho, mas é um plano de saúde BEM específico: eu sou filha de militar. Meu pai é da Aeronáutica e sou dependente dele. Ele paga para que eu tenha direito a usufruir deste benefício. Só que EU sou a filha dele, meus filhos não, o que gera uma situação interessante: eu posso ser atendida no Hospital da Aeronáutica e mesmo fazer um excelente pré-natal por lá, eu posso ter a bebê por lá e ter direito a tudo no atendimento que seja relacionado a MIM, mas a bebê não tem direito a nada. SE acontecesse da bebê precisar de UTI neo-natal, ela seria transferida para outro hospital, por exemplo, ou eu teria de pagar o que na época em que nasceu o Gabriel seria equivalente a uns 6 mil reais como uma espécie de “seguro”. Logo, eu tive o Gabriel pelo SUS e terei a Carmen pelo SUS.

Então porque Curitiba e não São Paulo? Basicamente, solidão. E qualidade de atendimento. Eu não tenho parentes em São Paulo e a minha opção seria ou ficar com minha mãe no Rio de Janeiro ou com minha sogra em Curitiba. Minha mãe tem diversos probleminhas de saúde que precisam de atenção neste momento E eu já tive minha experiência com uma maternidade do SUS do Rio de Janeiro em 1998. Meus sogros são um doce de pessoas e eu tenho certeza absoluta que minha sogra vai me ajudar bastante no período pós-parto e o atendimento do SUS em Curitiba, usando o clichê mais manjado que existe, nem parece atendimento do SUS.

O programa Mãe Curitibana

Minha primeira surpresa foi quando chegamos na unidade do Mãe Curitibana. Eu esperava um posto de saúde simples, um andar e algumas salas. Dei de cara com um prédio de 3 ou 4 andares, bonito, novo, com uma grande sala de espera, todo informatizado e com elevadores! Parecia um hospital e não um posto de saúde. Nas paredes, pôsteres explicativos com incentivos à amamentação, teste do pézinho/orelhinha e palestras e oficinas para as mães sobre diversos temas como nutrição, cuidados com o bebê, Shantalla… tudo com profissionais de cada área dando as aulas!

Fizemos um cadastro no computador com meu nome, identidade, endereço em Curitiba e outros detalhes básicos e que já definia uma maternidade próxima à minha residência onde eu fui vinculada. Recebi no ato meu cartão de pré-Natal e levei outro choque cultural: o “cartão” de pré-Natal do programa Mãe Curitibana é, na verdade, uma agenda incrivelmente detalhada com páginas para todo tipo de informação, exames, consultas, gráfico de evolução da gravidez e algumas páginas ao final com diversas dicas de alimentação correta, de evolução da gravidez, de apoio e tirado dúvidas comuns neste período, e com foco também no pai!

Aliás, este é um ponto importante: o pai faz parte do processo todo no programa Mãe Curitibana. Eles têm um programa chamado “Pai Presente” que envolve um cadastro à parte do pai, que não só incentiva o pai a participar das consultas de pré-Natal e a fazer cursos de preparação para cuidar do bebê e preparação para o parto, mas também cuida da saúde do PAI. O pai também tem uma assistência completa, inclusive no próprio cartão/agenda descobri que se o pai tiver depressão pós-parto ele tem direito a atendimento também.

Para minha surpresa logo depois de fazer o cadastro me marcaram uma consulta com uma obstetra. Achei que seria um cadastro complementar e descobri que aquela consulta já foi considerada a primeira do meu pré-Natal. Ela fez um bocado de perguntas e basicamente me pediu para contar, de forma detalhada, a minha história de vida, antecedentes, etc. Enquanto eu ia falando, ela ia digitando tudo no computador. Depois descobri (sendo xereta e olhando na tela) que a mesma ficha detalhada estava disponível no sistema para qualquer computador da unidade, tudo integrado. Parece bobagem, mas o meu pré-Natal em São Paulo ainda é anotado a caneta em uma ficha de papel anexada num fichário, que é o meu prontuário. E às vezes o meu prontuário some e a médica precisa anotar tudo numa folha avulsa para anexar ao prontuário depois. Fui pesada, ela mediu o meu útero e ouviu as batidas do coração da Carmen e solicitou uma série de exames de sangue e urina (que eu já tinha feito, mas ela quis repetir por Curitiba). Saí de lá com as guias para exame, a data da próxima consulta e tudo anotadinho no cartão do pré-Natal e descobrimos ali na unidade do Mãe Curitibana mesmo que haveria uma visita à maternidade naquela quarta-feira (a visita acontece uma vez por mês).

A Maternidade

Ficamos inseguros porque, provavelmente por conta do feriado, não conseguimos falar com o telefone para agendar a visita à maternidade. Como o Rafa diz, só dava TTNA (toca, toca e não atende). Resolvi ser pró-ativa e falei para ele para irmos na maternidade de qualquer jeito, chegar antes da hora da visita e ver se conseguíamos fazer a inscrição no local, para não perder a viagem. Se não desse, paciência. Foi bom que eu tenha resolvido ir de qualquer jeito: chegando lá, descobrimos que não havia necessidade de fazer inscrição alguma, apenas estar lá no horário da visita (\o/!) Aliás, falando em surpresas: a maternidade não é um prédio de vários andares, é uma espécie de casarão antigo (parece uma escola do século passado). Surprise, surprise. E fica a cinco quadras de casa, voltamos a pé.

Ficamos nerdando na recepção esperando a hora passar. Aos poucos foram chegando outras grávidas e seus acompanhantes. No horário fomos convidados a entrar num auditório e esperar mais um pouco. Descobri ali que havia um ônibus/van para transportar as mães interessadas em fazer a visita à maternidade das várias unidades do Mãe Curitibana e estávamos esperando elas chegarem.

No auditório, uma enfermeira obstetra muito bem informada fez uma apresentação sobre a maternidade, sua estrutura, a opção deles pelo parto humanizado, deu detalhes sobre tudo, respondeu perguntas e reforçou que a gestante tem o direito por lei (de 2008, tarde demais para o Gabriel mas bem a tempo para a Carmen!) de ser acompanhada por alguém que seja de sua confiança durante o parto. Ela ia falando e ia me dando um nó na garganta de felicidade, sabe, eu me via acenando com a cabeça com um tremendo alívio, porque parece que tudo aquilo que eu tinha receio que se repetisse do parto do Gabriel não existe mais. Agora o pai pode assistir o parto, agora eu não preciso ficar sozinha sentindo dor por horas a fio, agora eu não preciso ficar horas deitada numa maca em jejum absoluto me perguntando se está tudo bem e se isso é nomal mesmo (existe um jardinzinho para caminhar e ajudar a aliviar as dores do pré-parto, eles têm banheiras na sala de parto para ajudar a aliviar as mesmas dores e a gestante pode beber líquidos até mesmo durante o trabalho de parto, que diferença brutal!) e eles têm essa coisa da gestante parir na posição que ela achar melhor: de cócoras, de lado (?!), dentro d’água… E o mais impressionante é que é tudo um serviço público e gratuito e qualquer mulher de Curitiba tem direito a isso.

Essa parte de parir em sei lá quantas posições possíveis é a única que me assusta um pouco porque eu não entendo nada disso, mas eles têm um curso pré-parto bem completo e eu espero estar mais bem informada quando a hora chegar. De qualquer forma, eu acho que é o excesso de possibilidades que assusta um pouco, sabe? Quando eu tive Gabriel não me explicaram nada, não me perguntaram nada, eu nem vi a cara dele até ele vir do berçário para o alojamento conjunto. A episiotomia não é mais feita a não ser que seja absolutamente necessário. Idem qualquer intervenção como anestesia ou romper a bolsa. Eu não só vou olhar para a carinha da minha filha quando ela nascer, eu vou dar de mamar para ela logo depois do parto! Eu vou ter ela nos meus braços! E o Rafa vai estar lá, segurando a minha mão e tão bobo e emocionado quanto eu. Ele vai poder dar o primeiro banho nela junto com a enfermeira. E eles têm essa coisa de que o pai ñ tem de assistir ao parto mas de participar do parto e de todas as partes do processo. Isso vai ser muito foda mesmo =)

Além da palestra houve também uma excursão pelas dependências do hospital, e a enfermeira-obstetra mostrou onde cada coisa acontecia. Outra coisa que me aliviou demais é que todas as enfermeiras lá tinham uma pinta de quem adora seu trabalho e foram super simpáticas quando nosso grupo passou por lá. Eles têm UTI neo Natal caso seja necessário, e eu vi os bercinhos do alojamento conjunto (esses continuam os mesmos de 12 anos atrás rs…). Resumindo: eu saí da maternidade muito aliviada, com esperanças de que desta vez vai ser muito mais tranquilo, tendo a real percepção de quanta coisa eu perdi/não tive da primeira vez e segura de estar fazendo a melhor opção possível pela Carmen. Fazer o parto com o obstetra que estiver de plantão ainda me assusta um pouco, embora eu saiba que todos os médicos e enfermeiras obstetras ali sejam treinados para fazer o parto humanizado. Mas ter o Rafa do meu lado, ajudando, participando, estando lá, segurando a minha mão vai fazer todas as minhas inseguranças desaparecerem, disso eu tenho certeza. Era tudo o que eu queria, e mais do que eu queria. Eu não faço planos para o futuro, mas se as coisas acontecerem como estão prometendo se desenrolar, eu ficarei muito, muito feliz.

This entry was posted in Carmen, gravidez, Parto. Bookmark the permalink.

14 Responses to Mãe Curitibana

  1. Cândida says:

    Olá! Parabéns pela perfeita descrição do programa mãe curitibana, também estou fazendo meu pré-natal por lá. Por acaso a maternidade a qual vc se refere é a Mater Dei? Estou vinculada a ela mas ainda não conheco. Abraços.

  2. Mistelko says:

    Oi Lanika!
    Nossa eu não sabia que o programa Mãe Curitibana é tão bom!!! Fucei na internet até achar um obstetra que fizesse parto humanizado e atendesse pela Unimed, e eles tem isso pelo SUS! Fiquei boba gora!
    Boa sorte no seu parto!!
    Beijo

  3. Pingback: 1 semana de Carmen! | Gabriel+Carmen

  4. Raphaeli says:

    oi. onde fica a unidade do mae curitibana?

  5. Thaty says:

    Se eu fizer meu pré natal na Mãe Curitibana, quais são minhas opção de maternidade pra ter meu bebezinhu?
    vlw mãezinhas

    • lanika says:

      Thaty, eu sou mãe, não sou ligada ao programa Mãe Curitibana, esse aqui é um blog sobre meus filhos. Acho que você deveria ligar lá para eles e procurar se informar direitinho sobre isso ao invés de perguntar pra mim, né não? Eu botei o telefone em outro comentário.

  6. Pingback: O Brasil não cuida de suas mulheres #sejarosa » Ladybug Brasil - Sobrevôos, descobertas, achados.

  7. Kellyn says:

    Eles fazem cesaria la tambem?

  8. Mara says:

    Que lindo, faço parte do mãe curitibana, quero o meu igualzin :)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>